E se essa rua fosse minha?

se-esta-rua-fosse-minhaPensar sobre a Rua,  não só como o caminho pelo qual nos locomovemos e sim, como um espaço de convívio. Dito assim, parece vago e desinteressante. No entanto, tal discussão tem tudo para ser das mais enriquecedoras quando apresentada pelo professor Alexandre Ruiz Rosa. Arquiteto e urbanista com vasta experiência internacional fará uma imperdível palestra onde o enfoque está na recuperação da “dimensão humana” das  ruas. Vejam, perspectiva mais interessante do que esta, para quem pedala, não há!

Pedalar é um ato político e, desta forma, quanto mais ampla for nossa visão e nossa capacidade de compreender e pensar sobre este nosso ato, melhor nos situaremos no espaço e época em que estamos inseridos.

Então fazemos aqui um veemente convite para que, no dia 30 de agosto de 2016, uma terça-feira portanto, às 18h30min, você venha até o Sesc Paço da Liberdade na Praça Generoso Marques, 189, Curitiba, para participar da palestra com o professor Alexandre. Porque a Rua é de todas as Pessoas, peatonaltas, pedalantes, skeitistas, corredoras e também, mas não sei por quanto tempo ainda, das motorizadas.

Um agradecimento que só quem pedala vai entender

001-Estrada-da-GraciosaBike shops, bicicletarias, lojas de bikes, existem muitas por aí, que fazem um bom trabalho, com um bom atendimento, que vendem bons produtos e tudo mais. Mas fazer o que o Régi da Cicles Langner têm feito, acho que são poucos, pouquíssimos. Eu particularmente, desconheço outra iniciativa como esta que passa a ser narrada abaixo.

Organizar um passeio ciclístico demanda tempo, responsabilidade e dedicação. Não é a toa que muita gente tem se profissionalizado nesta área de promoção de eventos para ciclistas. E isto é muito bom! Quanto mais opções de atividades, competições, passeios, cicloturismo, melhor.

Agora pensem em alguém que trabalha de segunda à sábado, que é o primeiro a chegar no trabalho e o último a sair, que tem família pra dar atenção e compartilhar o pouco tempo que sobra do sábado à tarde e o domingo e, ainda assim, organiza um passeio de bicicleta, onde o único custo é o valor do aluguel da Van, rateado entre os participantes, o que deu 40 reais.

Pois então, esta pessoa tem nome e sobrenome e, mais que o simples interesse profissional/comercial, tem verdadeira alegria e paixão pelo ciclismo. O Reginaldo Langner – que prefere ser chamado só de Régi, é o cara!

Assobia e chupa cana – ao mesmo tempo que troca uma câmara furada. Ele vai de carro de apoio, tira foto, faz consertos das bikes que vão dando problema pelo caminho, leva água, refrigerante e suco nas caixas de isopor, com gelo – vejam que riqueza de preocupação com os detalhes! Prepara sanduíche com queijo e presunto, compra 2 imensos pacotes de pão de queijo Mineirinho, além de muita banana, maçã e mimosa.003-Desafio-Passeio-Subida-da-Estrada-da-Graciosa

Nem soou como piada quando, numa das paradas para reabastecer e se hidratar, alguém perguntou:

-Nós viemos aqui pra comer ou pra pedalar ?

Toda esta festa fez da tarde/ começo da noite, do último sábado (13/08/2016) a alegria de outros 11 bicicleteiros que, como eu, subiram a Estrada da Graciosa na mais absurda escuridão, na qual a gente só conseguia enxergar até onde o feixe de luz da lanterna alcançava. Um céu estrelado e o barulho dos bichos no mato. Gente…isto é muito demais! Subir a Graciosa nestas condições é de causar as mais boas e indescritíveis sensações.002-Desafio-Passeio-Subida-da-Estrada-da-Graciosa

Saímos pouquinho depois das 14h30 min de frente da loja da Cicles Langner, chegamos na ponte de ferro sobre o Rio da Mãe Catira, por volta das 18 horas, isto com 3 paradas durante o caminho. Forma 65,3 km em 3 horas e meia, o que dá uma média de 18 km/h. Quer dizer, literalmente, que foi um passeio muito sossegado e que dá pra qualquer criança de 12 a 80 anos acompanhar sorrindo e conversando. Bem por isto que o Régi sempre faz o convite no Facebook e chama tod@s que tiverem interesse.

004-Desafio-Passeio-Subida-da-Estrada-da-GraciosaDizer MUITO OBRIGADO é, ao meu ver, muito pouco. Queria eu ter a habilidade de encontrar no dicionário as melhores palavras que pudessem traduzir o máximo de gratidão que não só eu, e sim todos os meus companheiros de pedalada, gostariam de manifestar ao Regi, que propiciou para nós um daqueles dias que ficarão para a memória.

Obrigado também à Jaque Langner que, generosamente compartilhou o Régi com a gente e, também a todos os cúmplices desta pedalada: Fábio Tanaka, Diego Thomaz, Helvi, Acawan, Cris Bodnar, Guilherme Hiurko, Ana Paula, Romazir

Delírio cicloviário

MidiaEstadaoDepois de um ano em branco, o blog aqui traz uma nova publicação – para tratar de uma celeuma não tão nova como.

Parece mesmo que os lampiões da iluminação pública do início do século não merecem ser substituídos por esta coisa “perigosa” da energia elétrica, isto é claro, se a iniciativa de substituição for feita por um “petralha” e, na banca, a manchete for de um jornalão “coxinha”.

Quem pedala, quer estrutura cicloviária, não importa o gestor público, muito menos sua coloração partidária. Acima – e anterior – a esta maniqueísta, débil e fratricida polarização que vemos em nosso país, estão as queixas e reivindicações daqueles que procuram uma maneira mais racional, econômica e saudável de se locomover pela polis.

Agora, não tem como fechar os olhos para esta situação claudicante. Ver os grandes meios de comunicação condenando a implantação de vias para bicicletas, pelo simples fato de que estas estão sendo promovidas pelo prefeito de um determinado partido, é de fazer chorar a inteligência – ou o que sobrou dela, depois de anos acreditando na “imparcialidade” dos meios de comunicação. Sem ofensa aos bichinhos, se já não me bastasse a carinhosa alcunha de coxinha, os caras aí da imprensa estão querendo me colocar orelhas de burro.

Tudo isto para chegar ao ponto. No dia 3 de abril último, o jornal Estado de São Paulo publicou um editorial que foi, leviano, parcial, partidário e medonho, isto para dizer o mínimo.

Eis que chega a nós o twite  do @pedalante, divulgando  as respostas elaboradas pela comunidade Eu apoio ciclovias e faixas de ônibus em São Paulo  anotadas ao lado do texto abaixo:delirio-cicloviario

O link para ver diretamente no facebook é este aqui.

Os donos dos grandes jornais, invariavelmente, são pessoas  riquíssimas, estudadas, inteligentes, viajadas e que conhecem e sabem dos benefícios que as bicicletas trazem para a mobilidade da cidade. Só que, antes de pensar no bem da cidade, do país, pensam eles na defesa de seus interesses mais íntimos, e aí, se for preciso, eles metem fogo no circo só pra ver o povo pegar fogo. Cai por terra a missão de informar, o compromisso com o meio ambiente, a pose de imparcialidade, enfim, cai a máscara.

 

 

 

Fotografias da Bicicletada Curitiba de Abril/2015, Ghost Bike Magoo

Galeria

Esta galeria contém 48 fotos.

Neste sábado, dia 25 de abril de 2015, foi realizada a Bicicletada Curitiba e junto, mais uma,triste, Bike Ghost . Impensável é lembrar que, no domingo passado, participávamos de outra Ghost Bike, aquela, em memória da Mari Kakawa e, a … Continuar lendo

Pedalaço contra o Tarifaço

Pedalaço contra o Tarifaço de Pinhias à CuritibaNesta segunda-feira, dia 9 de fevereiro, o pessoal do Pedala Pinhais promoverá um duplo protesto, ao qual estão chamando de: PEDALAÇO.

Duplo porque pretende se manifestar pelo transporte, seja de ônibus ou então de bicicleta. Com a desintegração da rede entre os ônibus metropolitanos e os da capital, todos os moradores das cidades vizinhas de Curitiba sofrerão amargamente, os de Pinhais inclusive. Primeiro que a passagem vai subir mais do que a de Curitiba e, segundo porque grande parte dos beneficiados pela integração terão que pagar 2, ou até 3 vezes mais passagens para chegar ao destino de trabalho ou estudo.

Intimamente associado a esta questão, está o fato de que não existe estrutura para que as pessoas possam usar de meios alternativos, como a bicicleta por exemplo. Sequer existe um Plano Cicloviário em Pinhais, realidade que não deve ser muito diferente nas demais cidades da Região Metropolitana.

Segundo Rodrigo Gaya, professor de yoga e um dos organizadores do evento, “grande parte das pessoas poderia se livrar da precariedade e do preço abusivo do transporte coletivo usando a bicicleta, mas infelizmente, não dispomos de ciclovias nos eixos de transporte e nem do respeito dos que estão motorizados”. Ele faz um apelo e convoca todos os ciclistas de Curitiba e da região para que, “venham fazer a pedalada de segunda-feira a noite com a gente e engrossar o caldo do PEDALAÇO, para mostrarmos às autoridades que nós existimos e precisamos de espaço para transitar com segurança”.

O PEDALAÇO terá concentração em frente à Câmara Municipal de Pinhais, dia 9/02, segunda-feira, às 17h; saída às 17h30min, indo pela João Leopoldo Jacomel, continuação da Victor Ferreira do Amaral, em direção à Praça Santos Andrade em Curitiba.

Em Curitiba, ciclovias ao longo das Canaletas têm que virar Lei

Mobiliza Curitiba, por uma cidade para as Pessoas - que pedalam, inclusive!

Mobiliza Curitiba, por uma cidade para as Pessoas – que pedalam, inclusive!

O Plano Diretor de Curitiba está em debate, não podemos perder esta grande oportunidade de inserir a Bicicleta nesta discussão. Para tanto, a Frente MOBILIZA CURITIBA já apresentou uma proposta onde se prevê Estrutura Cicloviária ao longo das vias lentas que margeiam as canaletas.
Só com a  PARTICIPAÇÃO E APOIO de tod@s @s Ciclistas desta cidade conseguiremos aprovar as excelentes propostas apresentadas pela Frente:

2. Ciclovias ao longo dos eixos estruturais Diagnóstico Os eixos estruturais conduziram e conduzem o desenvolvimento da cidade. Ao longo dos eixos, o zoneamento é diferenciado e há maior acesso à infraestrutura. Os eixos estruturais se caracterizam pelo uso diversificado, ao contemplarem as canaletas de ônibus e as vias para os carros. Entretanto, não há previsão de estrutura para os ciclistas nas estruturais. Continuar lendo

Em setembro as bicis florescem em Curitiba

artbicimobi2014Todo mês de setembro acontece em Curitiba o ArtBiciMobi. É uma festa para os pedalantes. Fruto do empenho, trabalho e muita dedicação das mesmas Pessoas – com “P” maiuscúlo – que, há anos, se dedicam à causa da ciclomobilidade na capital paranaense. Luis Patrício, Fernando Rosenbaum e Tissa, Jaques Brand, Belotto, Fabs, Goura (pra federal vote 4330), Fábio Esquentadinho, Guilherme Caldas , Anaterra Viana, entre tantos outros que infelizmente este escrevente aqui não conheceu mas que também, com todo mérito, podem se saber citados e partícipes na lista desta arguta galera.

Segue abaixo a programação completa das atividades para este ano de 2014, participem:

ArteBiciMob14 Calendario

Praça de Bolso do Ciclista, uma metáfora curitibana

006_praca_bolso_ciclistaCuritiba, em 1972, inovou. Transformou a rua mais movimentada da cidade, num lindo e impensável, à época, calçadão. Que comerciante, ou carro-dependente (se é que naquele tempo este tipo de cidadão já existia) ousaria questionar tamanha transformação, uma vez que o prefeito – biônico – tinha todo apoio e respaldo de uma ditadura que se encontrava no auge de sua tirania e crueldade, tinha recém aprovado o AI-5 e ainda não havia assassinado o jornalista Vladimir Herzog, fato que marcou o início da derrocada do regime. Continuar lendo

Será que finalmente poderemos parar de andar na canaleta?

 

Pelo menos num pequeno trecho da Sete de Setembro parece que sim, como já foi noticiado pelo blog Ir e vir de bike, a avenida 7 de Setembro esta sendo reformada  com marcação no chão com área especifica para transito de bicicletas:

Marcação na pista

Marcação na pista sendo feita

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Confesso que fiquei surpreso, pelo que parece esta sendo algo bem feito, uma pista bem marcada e com largura razoável, nos dois sentidos da Av. Sete de Setembro. Seria interessante que isso fosse feito em todas as canaletas, e em todas grandes avenidas e binários, dai sim teríamos uma cidade verdadeiramente ciclável.

 

detalhe da marcação do cruzamento, muito bem marcada.

detalhe da marcação do cruzamento, muito bem marcada.

 

Bike-box no semáforo, coisa de primeiro mundo

Bike-box no semáforo, coisa de primeiro mundo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vale lembrar que essa obra em questão é um pouco mais de 1% do que foi prometido pela prefeitura, mas já é um começo.

 

 

 

Hoje é dia de Paris-Roubaix, crème de la crème das Clássicas !


O dia 14 de abril de 1996 não era um domingo comum, pois era dia de Paris-Roubaix. Mas também não era uma Paris-Roubaix nornal: era o aniversário de 100 anos da Rainha das Clássicas, do Inferno do Norte. E todos queriam entrar para a história ao vencer este Monumento em data tão especial.

Só que a poderosa equipe italiana Mapei queria mais que todo mundo e daria para o mundo do ciclismo e para a própria Paris-Roubaix um presente absolutamente inesperado! Seus ciclistas varreram a classificação da prova, com os três primeiros (o belga Museeuw e os italianos Bortolami e Taffi) chegando juntos e celebrando efusivamente no velódromo de Roubaix. Para completar a festa, outro italiano da equipe, Ballerini, chegou em 5º.

Isto nunca tinha acontecido antes em clássica alguma: três gigantes da mesma equipe chegando juntos destacados … o mais legal desta história é que nem tudo foram flores nesta vitória épica, inédita e jamais repetida por qualquer equipe.

Primeiro, que não fique dúvida: a Paris-Roubaix se vence na força bruta, somada com habilidade para vencer os pavés (especialmente se estiverem úmidos ou com lama). E foi assim que os Mapei Boys fizeram. Passaram a corrida toda na ponta, maltratando os adversários, enfiando seus gregários em todas as fugas, desde o início da prova.

Esta foto é da edição de 1922

Esta foto é da edição de 1922

No primeiro corte sério, no Km 164, algo como 25 ciclistas foram para a ponta com 5 Mapeis entre eles. Não tinha conversa, eles iam pra ponta de forma insolente, ignorando a qualidade dos seus adversários. Volta e meia o grupo se rachava em vários sub-grupos, pois bastava uma curva mal feita ou uma negociada errada num treco de pavê e o corte acontecia.

Os que mais trabalhavam eram Wilfried Peeters (belga e fiel escudeiro de Museeuw) e Andrea Taffi. Peeters poderá ser visto amanhã, dirigindo o carro da Omega Pharma Quick Step, pois trabalha para Patrick Lefevere desde que parou de correr. Já Taffi tornou-se um grande campeão, vencendo diversas clássicas, incluindo a Paris-Roubaix 1999, sempre fiel ao seu estilo: ataques frequentes de muita força, para vencer sempre destacado.

Voltando à prova, por volta do Km 180, Franco Ballerini, líder da equipe que já havia vencido em Roubaix em 1995 – e voltaria a vencer em 98 – furou incríveis 4 vezes! E foi num destes momentos infelizes dentro da própria equipe que os três Mapeis se foram. Primeiro Bortolami e Museeuw, em em seguida Taffi.

Na edição de 1998 também só deu Mapei:  Andrea Tafi 2º colocado, ao centro  Franco Ballerini o grande campeão e, à direita Wilfried Peeters 3º colocado

Na edição de 1998 também só deu Mapei: Andrea Tafi 2º colocado, ao centro Franco Ballerini o grande campeão e, à direita Wilfried Peeters 3º colocado

As cenas, que na época eram impossíveis de se ver por aqui (e que hoje o YouTube permite) são impressionantes: eles pedalavam mais forte nos pavés do que os seus perseguidores o fazim no asfalto. E quem os caçava não eram bobos: que tal Andrei Tchmil (vencedor de 1994 e de várias outras clássicas), Ekimov (um dos maiores passistas e perseguidores de velódromo da história) e um futuro colega de Mapei, Stefano Zanini (que venceu muitas provas, incluindo o Amstel Gold Race neste mesmo ano).

Mas apesar da qualidade dos rivais, o tripé da Mapei meteu 2’38” em Zanini e Ballerini (apesar dos 4 furos…), e mais de 5 minutos em Tchmil, Ekimov e outros menos estrelados.

CONFLITO INTERNO – Johan Museeuw tinha 31 anos de idade e estava no auge da carreira, já tendo vencido duas vezes o Tour de Flandres (venceria uma 3ª vez em 98), além do Amstel Gold Race, a Paris-Tours e o GP de Zurich (clássica de 1ª linha na época).

E Johan era favorito par levar a World Cup, classificação equivalente ao atual World Tour. Bortolami havia vencido o World Cup em 94, mas suas performances caíram bastante e ele era gregário para o belga. Taffi era jovem e não tinha voz no grupo.

A liderança de Museeuw no grupo era tamanha que ele furou duas vezes e os italianos – de uma equipe italiana – o esperaram. Curiosamente, a coisa ficou feia mesmo entre os dois italianos, que se desentenderam sobre quem ficaria em segundo e terceiro.

Taffi havia trabalhado como um escravo e acreditava merecer o segundo lugar por isso. Bortolami era uma estrelinha, com mais chances no World Cup, e queria o segundo. Durante um bom tempo ficou no ar como Patrick Lefevere (que dirigia o carro da equipe), decidiu a ordem de chegada. Supostamente algumas ligações entre ele e o dono da empresa Mapei, Giorgio Squinzi, aconteceram e eles se acertaram.

E estas conversas também aconteceram:

LEFEVERE PARA BORTOLAMI – “Diga a Taffi que se acalme, Johan deve vencer. Se ele não seguir esta ordem pode procurar outro emprego”.

BORTOLAMI A TAFFI – “Andrea, não quebre o acordo. Não tente nada, Johan deve vencer”.

TAFFIR PARA BORTOLAMI – “Eu não quero ganhar nada, só quero que me deixem ficar em 2º, mas você não concorda”.

Imaginem este tipo de conversa, a 45 km/h, sacudindo naqueles paralelepípedos depois de 220 km de corrida, ao mesmo tempo em que o líder da equipe furava duas vezes … imagens que hoje podemos ver hoje mostram que Lefevere quase pula da janela do carro enquanto dava ordens.

E apesar de tudo estar bem acertado, Johan ficou de roda antes da entrada na pista e me passou a impressão de não confiar muito no pacto. E quando foi para a ponta sempre dava uma olhada…

Quem vê a imagem festiva dos três celebrando no lendário velódromo de Roubaix não imagine o barraco que rolou antes. Dos três, Taffi parece ser o mais realizado e é também o mais abraçado e festejado pelo vencedor belga.

POLÊMICA – mas os tradicionalistas da época não gostaram. E as revistas que tenho deixam isso transparente: a classificação da prova estava pré determinada por Squinzi-Lefevere 40 km antes da chegada e isso desagradou os analistas. Queriam sangue nos pavés? Queriam um sprint de alto risco entre os três? Ou quem sabe um teatrinho forjando uma fuga de Museeuw?

A imprensa italiana, que gosta de uma polêmica como nenhuma outra, meteu a boca na equipe, pois jamais um belga deveria ser o vencedor. Lefevere respondeu: “Não entendo estas manifestações de patriotismo, isso é jornalismo de outra época. Afinal, a vitória foi de uma equipe italiana”.

Sem noção, né? Pois eu achei o máximo!! Eu e os torcedores do bom ciclismo, pois foi uma demonstração de força, de trabalho de equipe e tudo mais. Esta foto abaixo até hoje é publicada e venerada.

MAPEI E SUAS SUCESSORAS – a Mapei surgiu meio que por acidente em 1993. No início era mais uma equipe de provas por etapas, pois tinha no suíço Tony Rominger a sua grande estrela. Rominger venceu para a Mapei em 1994 uma Vuelta a España (venceu outras duas), uma ao Pais Basco, uma Paris-Nice. Em 95 levou o Giro d’Italia. Fera.

Mas a partir deste ano de 1996 a equipe nunca mais conseguiu acertar uma contratação de peso para o ciclismo de Voltas e acabou se tornando uma lenda nas Clássicas.

Nomes como Museeuw, Taffi, Ballerini, Steels, Vandenbroucke, Olano, Bettini, Bartoli, Bugno, Freire, Bomans, Nardello, Garzelli, Van Heeswijk, Camenzid, Svorada, Zanini, Cancellara, Evans, Bodrogi e até Axel Merckx, venceram INCONTÁVEIS clássicas, semi-clássicas, voltas e etapas de voltas, títulos mundiais e nacionais (de estrada e CRI).

Na estrada vencera o Mundial: Olano (95), Museeuw (96), Camenzid (98) e Freire (01). Fenômeno. No Ranking da UCI, foi a 1ª colocada em 94 e 2001, salvo em 2000. Absurdo!

Apesar de tudo isso, o final da equipe foi triste e a culpa foi de quem? … do maldito doping! Acusações dentro e fora da equipe fez com Giorgio Squinzi encerrasse a equipe. Declarações anti-doping de Taffi o isoloram no pelotão. Foi um lixo.

Mas o belga Patrick Lefevere, já rico e famoso, pegou as sobras da equipe e montou na Bélgica a DOMO-Farm Frites. Foram apenas dois anos, mas que dois anos … nas edições 2001 e 02 da Paris-Roubaix repetiram a dose de colocar três ciclistas no alto do pódio – a diferença para 96 foi que chegaram separados e não juntos. Mas estas performances foram espetaculares da mesma forma.

Sai a Domo-Farm Frites e Lefevere monta uma nova potência: a QUICK-STEP. Com Bettini e Boonen foi mais um festival de clássicas (San Remo, Flandres, Roubaix, Liège, Lombardia, fora as menores). E de Mundiais foram dois com Bettini e um com Boonen. Nos mundiais de CRI também venceu muito com Rogers (3x), Martin (2x). E no cyclocross tem Stybar … ufa, não acaba!

E quem está por trás de tudo isso? Patrick Lefevere, meu chapa. Sou fã incondicional, até porque ele é muito gente boa!

E agora uma ótima Paris-Roubaix para todos! Sugiro o site www.steephill.tv, pois lá tem todos os links possíveis para se assistir a prova. E não me consta que as emissoras de TV do Brasil irão transmitir a corrida.

Este maravilhoso texto para os amantes do ciclismo foi magistralmente escrito por  Fernando Blanco e foi originalmente publicado no fb, na página Ciclismo Pro