Ao povo, já nem o circo!

Há menos de um mês do início das Olimpíadas de Londres, a desconfiança, a frustração e até certa revolta parecem ocupar mais espaço no consciente coletivo da população local do que os nobres “valores olímpicos”

Inspirar as novas gerações, impulsionar o comércio e turismo local e valorizar a produção nacional eram algumas das promessas feitas pela organização dos jogos Olímpicos de Londres. Com a abertura do evento batendo à porta, as manchetes nos jornais ingleses e os comentários nas ruas contam uma história bem diferente. Cidadãos esbarram na dificuldade em conseguir ingressos, hotéis ainda quase vazios baixam preços em busca de hóspedes, motoristas de ônibus entram em greve e empresas nacionais reclamam ter perdido negócios em concorrências desleais. Com um custo de, especula-se, mais de 10 bilhões de libras, a população questiona se vai valer a pena e a pergunta mais repetida é: quem está levando o lucro?

Para entender como funciona o “negócio” olímpico é preciso entender quem são e o que fazem os dois órgãos responsáveis pela realização, comercialização e administração dos jogos. São eles a “ODA” ( Autoridade de realização das Olimpíadas) e o “LOCOG” (Comitê Organizador das Olimpíadas de Londres). De caráter público, a ODA é financiada pelos Departamentos de Cultura, Mídia e Esporte, pelo fundo da Loteria Nacional e pela Prefeitura de Londres. Já o LOCOG é uma empresa privada (cujo chefe executivo é Paul Deighton, ex-chefe operacional do mega banco Goldman Sachs na europa), financiada por capital privado oriundo da venda de ingressos, merchandise e cotas de patrocínio em âmbito nacional, além de receber parte dos direitos de transmissão dos jogos, repassados pelo Comitê Olímpico Internacional.

Ou seja, enquanto a ODA é responsável pelo financiamento e construção da infraestrutura dos jogos, incluindo o Parque Olímpico e todas as demais obras e reformas dos locais a serem usados nas Olimpíadas, o LOCOG fica a cargo da organização e comercialização dos jogos. Em termos básicos, a ODA banca os custos substanciais, com dinheiro público, e provê a estrutura, e o LOCOG arrecada o lucro. E até agora ambas instituições vêm cumprindo seu papel, de acordo com seu status. A ODA, pública, já gastou o dobro do que era o orçamento inicial, enquanto o LOCOG, privado, miniza os gastos (por exemplo, são 6 mil funcionários pagos e 70 mil voluntários) e defende o lucro com políticas abusivas, ainda que legais.

Tal divisão não passou desapercebida e o recente descontentamento mostrado pelo público em geral em relação à venda de ingressos trouxe a temática à tona. Com o processo de venda das entradas praticamente encerrado, a promessa de que 75% dos ingressos seriam disponibilizados ao público através do sistema de sorteio resultou ser, no mínimo, mal explicada. Acredita-se que, para os eventos mais populares, menos da metade dos ingressos foram de fato colocados à venda no sorteio. Para a cerimônia de abertura, especula-se que não mais de 20% foram disponibilizados ao público.

O restante foi cedido a autoridades, patrocinadores, e aos três revendedores autorizados: JetSet Sports, Thomas Cook and Prestige Ticketing. Detentoras de cerca de 350 mil ingressos, as empresas só os vendem como parte de pacotes que incluem também hospedagem, transporte e uma infinidade de outros “extras”, a preços nada democráticos. Como resultado, não só a grande maioria da população interessada ficou de “mãos abanando”, mas o mesmo aconteceu com muitos da própria comunidade esportiva. Nem mesmo jovens membros do Programa de Desenvolvimento Olímpico (um projeto para talentos do esporte menores de 18 anos) foram agraciados com ingressos, como confirmou à reportagem um jovem que defendeu a Gra Bretanha nos Jogos Olímpicos da juventude no ano passado, na Turquia. “Ninguém da equipe ganhou ingresso, mas a gente não pode discutir o assunto”, disse o atleta que, preferiu não ser identificado. Só lembrando, o slogan dos jogos é: “Inspirando a nova geração”.

Como comentou à reportagem o diretor do Clube de Ciclismo de Hackney (Hackney, no leste de Londres, é o principal bairro “anfitrião dos jogos”), Kier Apperley, “a grande maioria dos nossos jovens atletas vão acompanhar seus ídolos pela TV, ainda que a ação vai estar acontecendo logo ali na esquina. Esperamos poder usar a estrutura, uma vez terminados os jogos, mas ainda é cedo pra dizer se estas Olimpíadas vão ser lembradas como algo positivo para o bairro, ou ficarão marcadas na memória pelo seu caráter inacessível.”

Um grupo de 25 membros da Assembléia de Londres elaborou um documento pedindo a abertura do processo de venda e distribuição das entradas, porém os organizadores dos jogos fizeram uso de seu status de empresa privada para não revelar detalhes da operação (fosse uma empresa estatal, estaria sujeita à lei de liberdade de informação). Outra pergunta à qual o LOCOG preferiu não responder é o por quê da concessão de um contrato de revenda dos ingressos à JetSet Sports. A empresa é dirigida pelo bósnio Sead Dizdarevic, réu confesso no caso de suborno dos Jogos de Inverno de Salt Lake City, nos EUA, em 2002 (Sead teria subornado oficiais do COI para garantir a realização do evento na cidade do estado de Utah para, em troca, garantir para sua empresa a exclusividade na revenda de pacotes turísticos para os jogos).

Ainda em relação aos contratos cedidos pelo LOCOG, outro que causou certa revolta foi o de impressão dos ingressos para os jogos. Os 11 milhões de ingressos vão ser produzidos por Weldon, Williams & Lick, uma companhia com sede no estado de Arkansas, nos EUA, frustrando as concorrentes britânicas e minando outro slogan das Olimpíadas de Londres: o dos jogos “verdes” (de baixo impacto ambiental). Em entrevista ao jornal The Mail, o porta-voz da Federação de Pequenos Negócios do país, Andrew Cave, não escondeu a insatisfação do setor. “Fica a questão. Que benefícios os jogos estão trazendo para os negócios locais, quando tantos contratos estão sendo cedidos a companhias estrangeiras? Estes eram para ser os jogos mais “verdes” da história, mas transportar essa quantidade de papel de um lado ao outro do mundo não me parece uma atitude ambientalmente saudável.”

Outro setor recentemente atingido pelas ações do LOCOG é o de hotelaria. O comitê havia reservado 40 mil leitos (a preço reduzido), sendo uma parte deles a ser distribuída entre comissários, patrocinadores e dignatários, e a outra a ser revendida ao público através das três “provedoras oficiais de serviços hoteleiros” (JetSet, Prestige e Thomas Cook). Porém, de Janeiro até o presente momento, o Comitê já “devolveu” a metade de ditos leitos aos hotéis, os quais viram-se obrigados a baixar seus preços na tentativa de atrair hóspedes que possam preencher o espaço que até então contavam como vendido. Em certos hotéis, a queda de preço chega a 40%, o que pode anular o lucro extra esperado pelos hoteleiros no período dos jogos.

E a lista dos descontentes não termina aí. Moradores dos barcos ancorados ao longo do canal na região do Parque Olímpico serão obrigados a deixar o local, ou serão multados em 25 libras por dia. Residentes de um complexo de apartamentos populares também vizinhos ao estádio terão tropas do exército e equipamento de artilharia anti-aérea instalados em seus telhados. Motoristas de táxi reclamam que a faixa exclusiva para delegações olímpicas e VIPs tornará o trânsito um labirinto sem saída, enquanto os motoristas de ônibus fazem greve por um bônus pelo trabalho extra durante os jogos.

Além, é claro, dos centos de pequenos negócios que foram proibidos de utilizar qualquer símbolo ou palavra referente às Olimpíadas, que só poderão ser utilizados pelos pareceiros oficiais dos jogos. São casos que parecem anedóticos, como o de uma pequena floricultura na cidade de Stoke, que teve de retirar os anéis olímpicos de sua vitrine. Ou uma pequena lanchonete em Stratford, que teve de mudar o nome de “Olímpiad” por “Limpiad”, ou a senhora de 81 anos que teve de retirar uma boneca de sua banquinha em um mercado de igreja, em Norfolk, porque esta exibia um bordado com os anéis olímpicos.

Com tanta gente descontente, é fácil pensar que os Jogos Olímpicos de Londres estão fadados ao fracasso. Porém o descontentamento da “massa” só existe por consequência de uma política extremamente eficiente para outros. Para poucos. Um relatório elaborado pela agência de avaliação de crédito Moody’s e publicado pelo jornal The Telegraph prevê um ganho praticamente nulo, no que se refere ao PIB, e corrobora o que já se ouve nas ruas. “Os patrocinadores corporativos serão os maiores beneficiados pelos jogos”, declarou Richard Morawetz, responsável pelo documento.

No banquete cujo anfitrião é o LOCOG, estarão sentados os verdadeiros ganhadores dos jogos Olímpicos, mega corporações internacionais, entre elas Coca-Cola, McDonalds, Visa, LLoyds Banking, British Airways e BP (British Petroleum), que não defendem bandeiras nem tampouco nenhum valor nobre representado pelos atletas nas arenas do que é o maior espetáculo da Terra. Para estes, para os donos da festa, os jogos já são um sucesso, e as competições a serem vistas por milhões ao redor do globo são como sua volta da vitória.

reportagem: Garcia Press


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