Praça de Bolso do Ciclista, uma metáfora curitibana

006_praca_bolso_ciclistaCuritiba, em 1972, inovou. Transformou a rua mais movimentada da cidade, num lindo e impensável, à época, calçadão. Que comerciante, ou carro-dependente (se é que naquele tempo este tipo de cidadão já existia) ousaria questionar tamanha transformação, uma vez que o prefeito – biônico – tinha todo apoio e respaldo de uma ditadura que se encontrava no auge de sua tirania e crueldade, tinha recém aprovado o AI-5 e ainda não havia assassinado o jornalista Vladimir Herzog, fato que marcou o início da derrocada do regime.

001_praca_bolso_ciclistaO sistema de ônibus BRT (bus rapid transit) que nós curitibanos chamamos de: canaletas de ônibus; também foi implantado pelo mesmo prefeito, Jaime Lerner, e sob o mesmo regime acima resumido. Ora, do ponto de vista urbanístico, estas obras foram e continuam sendo maravilhosas, inovadoras e revolucionárias. E também sem custo político algum para o seu realizador, afinal, quem é que iria organizar manifestação, reclamar ao vivo na rádio Band News ou CBN, postar um rosário de queixas no Facebook ou organizar passeatas e protestos com direito a black blocs e coquetel Molotov? Me digam, quem aí estaria disposto a encarar as masmorras do dócil regime de Garrastazu Médice?

004_praca_bolso_ciclistaAgora os tempos são outros, como diria nosso grande literato Dalton Trevisan. Para implantar 2,5 km de faixa exclusiva para ônibus na rua XV, a atual gestão municipal está sendo torpedeada por todos os lados. Argumentos, os mais egoístas, ecoam, vindos de todas as direções, coisas como: “onde já viu, já tá tudo congestionado e ainda querem tirar mais faixas das ruas para dar aos ônibus?”

Sim curitiboca, é justamente esta a ideia. Privilegiar o transporte coletivo em detrimento do individual. É o que se faz já há algum tempo, no mundo inteiro, e por que não aqui na Curitiba do vanguardismo e da modernidade? Mas e a Praça de Bolso do Ciclista, o que tem à ver com tudo isso? Calma, já chegamos lá…

007_praca_bolso_ciclistaAntes da faixa verde dos ônibus da rua XV, o atual prefeito, Gustavo Fruet, lançou a Via Pacificada ali na Sete de Setembro. Mesmo com todas as pertinentes críticas que, assim como eu, vários outros ciclistas que transitam pela via, fazem; coloco em pauta aqui, tão somente um dos aspectos positivos da obra, qual seja, a boa vontade e iniciativa da atual gestão. Fruet foi à sua posse de bicicleta, chamou alguns integrantes que militam pela causa das bicicletas para atuarem em sua gestão e, mais, se mostra aberto ao diálogo e disposto a fazer.

009_praca_bolso_ciclistaAgora sim, vem o beijo e a mordida à dita Praça de Bolso do Ciclista, na realidade um lote, chamar de “de bolso” é eufemismo, a não ser que seja aquele bolso, dentro do bolso – de carregar moedas – clássico nas calças jeans. A construção é solidária, os próprios ciclistas estão ajudando na realização das obras – nada mais humano e integrador. À revelia dos céticos, podem os otimistas dizerem: “antes isto do que nada, ou, o que vale é a intenção”. Feliz, ou infelizmente, os que pedalam, embora quisessem (queiram) mais, precisam receber de bom grado as boas intenções do prefeito – e não existe ironia nenhuma nesta afirmação -, mas precisam perceber que, não basta a administração pública ser sensível à causa das bicicletas, enquanto a cultura do veículo motorizado particular, for hegemônica em nossa província, será ela quem continuará “mandando” nas ruas, poluindo nossa cidade e atropelando e matando os ciclistas, seus direitos e seus humanos ideais. Imprescindível lembrar que, jamais invocaria um Estado de exceção e ditatorial para escorar possíveis transformações urbanísticas ou quaisquer outras.008_praca_bolso_ciclista Com certeza, o saldo positivo do que pôde fazer nosso prefeito-arquiteto, pela cidade, amparado pela ditadura é, infinitamente menor do que todos os males e sequelas deixados pelo trágico regime militar, para o país.

Não estou aqui, defendendo, nem tampouco “amenizando” possíveis críticas à atual gestão, a reflexão que se quer colocar aqui é a de que um administrador público gesta para o conjunto da sociedade e, mesmo sabendo que o interesse da maioria dela, não seja o melhor para o município, ele não suicidaria sua coesa e ilibada carreira política, no intuito de atender, amplamente, às reivindicações de uma minoria sabiamente alinhada com a hodierna razão mundial. Nesta conjuntura, o que pode o atual prefeito fazer, com toda sua boa vontade e total interesse em começar a resolver os problemas relativos à mobilidade urbana, ante aos interesses daqueles que fazem de Curitiba a capital dos automóveis (IBGE,2010), é tão largo quanto a faixa destinada às bicicletas na Via Pacificada e da “imensidão” da Praça, de bolso, dos ciclistas.

Informação: a Praça de Bolso do Ciclista fica no começo da rua São Francisco, onde ela se encontra com a rua Presidente Faria. Se você quer ajudar na realização desta obra entre em contato com a Cicloiguaçu, entidade que representa os ciclistas de Curitiba e região.

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