As bicicletas e as estatísticas do governo Richa/Ducci a frente da prefeitura de Curitiba

Faixa de Lazer para os ciclistas, mas só uma vez por mês, enquanto acidentes com ciclistas são mais de 2 por dia

De primeiro de janeiro de 2001, quando assumiu a prefeitura Beto Richa, até o dia 30 de setembro de 2011, já na gestão do Luciano Ducci, os números oficiais apresentam valores expressivos. Não de quilômetros de ciclovias ou ciclofaixas, ou de bicicletários e paraciclos instalados, mas sim de acidentes envolvendo os pedalantes desta “sustentável” capital.

Foram 4633 (quatro mil seicentos e trinta e três) acidentes envolvendo ciclistas com carros, caminhões, ônibus e motos. Destes, 65 foram vítimas fatais, no local do acidente. Não contabilizados aqui os que morreram a caminho do hospital ou que ficaram gravemente feridos.

Nestes mais de 10 anos, muito se falou em sustentabilidade, mobilidade urbana, muito foi prometido em termos de estrutura cicloviária e agora, ao final desta década de gestão Richa/Ducci, eles solene e estrondosamente oferecem o “Circuito Ciclofaixa de Lazer”, com extensos 4 km de faixa à esquerda – pois fora o único domingo do mês que funcionará a faixa de lazer, se o ciclista for atropelado e não estiver no lado direito da via, a responsabilidade é dele!

Estão estampados em inúmeros painéis pela cidade a propaganda da “Faixa de Lazer” (se fosse ciclo-faixa- seria na direita das vias!), o que se gasta em publicidade talvez seja muito mais do que custaram aquelas pobres e desnutridas linhas vermelhas no chão.

Os dados são oficiais e foram obtidos no site bombeiroscascavel.com.br . Se imaginarmos as ocorrências sem registro, o número de acidentes, inequivocamente, deve ter sido muito maior.

Estrutura cicloviária em Curitiba: do discurso à prática

Graças ao mesmo Twitter que censura o Wikileaks, recebi uma mensagem do Vitor (@VMagliocco) que me indicando o link para uma reportagem da RPC.

“Corte de 99% para ciclovias emperra melhoria do sistema. O investimento inicial era de R$ 2 milhões, passou para R$ 26 mil. E até agora nenhum real foi utilizado”.

Simples, curta, consubstanciada por documentos oficiais, cujas fontes estão na internet para qualquer um ver; a reportagem trata a questão do uso da bicicleta com a seriedade de quem reconhece nela um legítimo e indispensável meio de transporte para nossa cidade. O uso das canaletas (vias exclusivas para ônibus) por ciclistas que, conforme narra um entrevistado é menos perigosa que as congestionadas e nervosas ruas de Curitiba. Os mais de 100 km de ciclovias que, interligando parques, não servem em sua maioria ao deslocamento casa-trabalho-escola. E claro a vedete maior em pauta: a aplicação de nenhum centavo de real dos mais de R$ 2,2 milhões orçados para a implantação e revitalização de infraestrutura cicloviária do município. Belo trabalho dos jornalistas José Vianna e Alex Barbosa.

Enquanto na Malásia, em seu discurso na 2ª Conferência de Cidades Sustentáveis de Classe Mundial que ocorreu no dia 19 de outubro, o prefeito Luciano Ducci fala que a “cidade pode se transformar enquanto cresce e ser ainda melhor por meio de políticas públicas que se sustentam“. Depois, mencionando as ciclovias da cidade: “Pioneira no Brasil na implantação de ciclovias, Curitiba tem hoje mais de cem quilômetros de vias destinadas ao uso dos ciclistas, interligando os parques“. Sugiro a leitura da íntegra do discurso, pois é interessante observar que, o que se fala lá fora, pode não ser tão grandiloquente quanto o que a gente vive aqui na cidade.

O interessante é perceber a sinuosidade entre o discurso e a prática. Lá nos idos de 2008 o vereador líder do prefeito Beto Richa na Câmara de Vereadores, demonstrando conhecimento de causa, apresentando dados estatísticos defendia, em nome do então prefeito, a implantação de ciclovias e ciclofaixas. No entanto o “defensor dos ciclistas” é o mesmo que vota pelo corte dos orçamentos para a infraestrutura cicloviária. Vejam aqui como é deveras entusiasmante o discurso do edil.

O curioso é perceber que existe uma grande leva de vereadores que defendem o uso da bicicleta e a construção de ciclovias e um prefeito que discursa bonito em nome da sustentabilidade. Porém, o que acontece em nossa cidade onde as boas intenções daqueles que tem a condição e a competência para decidir e realizar acabam não indo além dos discursos? Como interpretar este comportamento? Por que as promessas não se tornam realizações, por que o Orçamento é previsto e não é executado?

O lado político da luta ciclo-ativista

O PSDB, partido do ex-presidente FHC – das privatizações, da venda da Vale dentre outras “valorosas” atitudes orientadas pelo Consenso de Washington; parece ter definido o nome do atual prefeito de Curitiba, Beto Richa, como candidato ao governo do Estado.

A Bicicletada, movimento de organização espontânea (Critical Mass), já está consolidada em nossa cidade. No último sábado do mês, nunca menos de 100 ciclistas ocupam as ruas centrais da capital para manifestarem, de forma alegre e pacífica, sua preocupação com o destino do planeta, apresentando a magrela como um meio de transporte que pode contribuir, e muito, para um Mundo menos poluído.

-Tá…mas qual a ligação, qual o nexo, entre o primeiro e o segundo parágrafos ? Há um escandaloso erro de continuidade, ou eu estou enganado ?

Então, vamos tentar dar algum sentindo às coisas.

Todos sabemos (falo isto me incluindo como alguém que participa da Bicicletada) o que queremos. A possibilidade de fazer da magrela nosso meio de transporte para o trabalho, para o estudo e como meio de transporte e, para isto, precisamos de ciclofaixas, ciclovias, respeito no trânsito e condições mínimas de segurança. Quem primeiro deve prover estas condições, são os gestores do poder público em nossa cidade: prefeito e vereadores. Mas vale ainda a lembrança que estes, nada mais são do que os representantes da maioria da população (ao menos deveriam ser), escolhidos pelo voto; e não os representantes de pequenas oligarquias (como a do transporte coletivo por exemplo) ou dos interesses comerciais deste ou daquele grupo de empresas e corporações.

Nossa causa é legítima e encontra respaldo e apoio, no sorriso das pessoas que se congratulam com nossa manifestação; que perguntam: “-como faço pra participar deste ‘passeio’ ?”; que também querem sair de magrela mas não se sentem suficientemente seguras – por pura falta de estrutura urbana – para tanto.

Se temos uma causa justa e temos representantes para lhe dar cabo, então por que as coisas não acontecem ?

Eu ousaria dizer que, nossos representantes ou não estão suficientemente sensibilizados pelo forte apelo do que reivindicamos, ou não nos representam, minimamente,  a contento. Olhando para a Bicicletada, vejo também que, talvez já esteja na hora de ousarmos novas possibilidades e, olhando para frente, acredito sim que devemos nos organizar de forma mais orgânica, criando uma Associação ou coisa que o valha. Esta ideia do Goura tem todo meu apoio e, entendo que, mais organizados, haveremos de ser mais incisivos em nossas ações e reivindicações, o que só faria avançar nossas possibilidades de algumas conquistas.

O atual prefeito, se comprometeu a receber os ciclistas para conversar, isto eu ouvi dele quando estava tirando a foto acima e, também, saiu na Gazeta do Povo , pois então ?!? Candidato ao governo do Estado, desejoso de nos representar numa esfera superior de Governo, haverá o Beto Richa de cumprir o que nos prometeu ? Ou “não terá tempo” para nos receber, mesmo porque a bicicleta é mais um “problema” do que uma das soluções.

Quanto mais organizados, mais respaldados e respeitados; quanto mais respeitados, maiores as changes de sermos recebidos, ouvidos e, principalmente, atendidos em nossos interesses.

E isto é só um pouco, do lado político da luta ciclo-ativista !