Bicicletada de Curitiba, março de 2011

Dia 26 de março de 2011. Ontem faz um mês que aconteceu a tentativa de homicídio em Porto Alegre. Muitos dos que aqui estariam foram para lá prestar solidariedade e participar da Bicicletada de Porto Alegre, que lá é mais conhecida por Massa Crítica de POA.

Aqui, o ritmo é de festa. Curitiba comemora 318 anos com muitas brincadeiras para as crianças, shows nos parques e claro, o tradicional Passeio Ciclístico, mostrando para todos que a administração de Curitiba apoia, entusiasticamente, o uso das bicicletas – como um saudável lazer de final de semana!

Seria irônico, se não fosse trágico, mas até quem vende congestionamento e poluição para a “Capital Ecológica”, estava na rua vendendo e, parabenizando a cidade. Ou eles acreditam piamente na inocência do curitibano, ou estavam lá fazendo um stand-up comedy, tão em moda ultimamente. Capital com o maior número de veículos por habitantes, sem metrô ou trens urbanos, sem ciclovias ou ciclofaixas nos grandes eixos de transporte, congestionamentos que se libertaram da hora do rush, estão à solta o dia inteiro; e os caras vem dar parabéns vendendo mais carros? Por favor, vamos se respeitar!

Mas nem tudo está perdido. Nós, com nossas bicicletas, presenteamos nossa Cidade com transporte limpo, ocupando menos espaço, trazendo mais alegria e zerando o motorizado barulho. E Curitiba só melhora, ao menos no que depender das ideias, protestos, atitudes e intervenções de seres Humanos, como os que encontramos na Bicicletada, que organizam o MOB, que querem a Cidade para as Pessoas – como canta a nova música do Plá.

Abaixo alguns registros fotográficos da Bicicletada de Curitiba, que podem ser usadas à vontade. Só peço a gentileza de apontarem aqui para o blog a autoria das mesmas.[nggallery id=17]


Enjaulados

Enjaulados no trânsito

A Curitiba do verde, a Cidade Sorriso, capital “Ecológica” ou como queiram. Nada disso se verifica na prática. A não ser na propaganda oficial. Palavra de alguém que vive aqui desde muito pequeno e que, teve o dessabor de ver a cidade das pessoas no calçadão da rua XV virar a cidade dos shoppings centers. É tão gritante e absurda a situação que, nesta cidade, constrói-se um shopping ao lado do outro e, pasmem, parece haver demanda para mais um.

No princípio, lá nos idos dos anos 80, era só um, próximo ao Passeio Público. Cheio de irregularidades na construção, mas como os proprietários eram amicíssimos do badalado ex-prefeito Jaime Lerner, toda lei se torna desigual para os ditos “iguais”, quando o assunto é arrojo, modernidade urbana e inovação – base de uma administração burguesa, tecnocrata e mercadológica.
Hoje o centro da cidade está vazio. Dominado pelos “pedreiros” que, para cada pedra não pensam duas vezes – sequer uma – em furtar e cometer pequenos delitos. A polícia também já virou as costas. Está mais preocupada com o entorno dos shoppings e na defesa das grandes propriedades. Quem está preocupado se te roubaram a carteira e o celular ? Na hora de registrar a ocorrência o cara na delegacia só falta rir da sua cara, da inutilidade que significa – e ele sabe disso – a lavra do boletim de ocorrência.
Somado a tudo isto, como consequência também, o trânsito não deixa de “prosperar”. Enriquecendo as montadoras e, mais ainda o capital financeiro internacional com os financiamentos extorsivos de juros exorbitantes, o apocalipse motorizado não tarda a chegar.
O poder público se faz notar nestes momentos e, de forma clara, vemos na prática como funciona o Estado. Para te multar, te repreender e ao mesmo tempo encher os cofres públicos não faltam tirivas (agentes da DIRETRAN) a cada esquina, radares e tudo que possa gerar renda para a prefeitura. Agora, quantas escolas, quantos centros de recuperação de menores, quantos postos de trabalhos são gerados para que, na base desta questão social seja resolvido o problema dos despossuídos que, na carência absoluta de recursos, nos roubam e assaltam, vitímas, tanto quanto nós, deste modelo de sociedade iníqua e desumana.
Aí fica todo mundo enjaulado, ou dentro de casa, ou na segurança e artificialidade do “mundo encantado” dos shoppings ou ainda nos engarrafamentos que, já podem ser entendidos como sinônimo de: trânsito, visto que não entendo como normal o fato de, dentro de um mesmo quarteirão, ver o sinal abrir e fechar 2, 3 e em algumas ocasiões até 4 vezes e as pessoas ali, queimando oxigênio, estressadas, conformadas e ordeiras, aceitando na maior passividade este estado de coisas.
E quando um esquentadinho vem todo buzinado e gritando:
-Sai da rua seu pobre ! Fazendo referência ao fato de eu estar de magrela e não abrir mão da minha faixa da direita – porque eu não fico grudadinho no meio fio pra ser derrubado e alvo de “finas”. Tal situação não me dá direito de resposta, mas isto, será tema do próximo post.

Curitiba: entre o discurso e a prática

Curitiba: cidade inovadora ?Mais um evento típico do sistema em que vivemos. Muita discussão, muitas ideias “INOVADORAS”, muito medalhão de discurso arrojado, muita (mas muita mesmo) publicidade – paga a preço de ouro e, o pior, com o nosso dinheiro. Mas na prática, o que vemos ? Nada do que se fala se efetiva. Exemplo maior disso foi o COP15. O sistema capitalista em que vivemos sabe do mal que está causando à Terra e, como forma de “amenizar” o efeito de suas ações, verbaliza e propaga a ideia de que sim, “estamos preocupados com o futuro do planeta“. Mas na hora de assinar e se submeter às regras que podem efetivar um avanço para a preservação da natureza e, ao mesmo tempo, um descompasso para o sistema capitalista; todos pulam fora !

Curitiba é um gritante exemplo disto. Tem a internacional fama de ser a “capital ecológica”, “cidade verde”, uma construção midiática, fundada e sedimentada pelo grupo do ex-prefeito Jaime Lerner  que, até hoje comanda o executivo municipal. Aqui o “verde” foi a sacada genial de uma gestão tão inteligente quanto oportunista. Mas aqui o transporte público é feito exclusivamente com o mais polunte dos derivados dos hidrocarbonetos: o diesel. Aqui, temos a maior concentração de carros por número de habitantes. Aqui não temos um metro ou outra alternativa de transporte de massas que não seja os ônibus das oligarquias locais.

Enquanto isto…Ciclistas são multados, pelo simples fato de, num ato político, exigirem ciclofaixas. Ora, convenhamos, mobilidade urbana, opções intermodais, para além de discursos, deveriam ser as prioridades de uma gestão, deveras, comprometida com o planejamento urbano, fato que, infelizmente, na capital ecológica não acontece.

Talvez, eu é que não tenha entendido a metáfora. Curitiba é sim uma “Cidade Inovadora”, ela figura como destacado exemplo de gestão pública que segue, rigorosamente, a cartilha dos somíticos interesses do capital e, ao mesmo tempo, constrói no inconsciente coletivo local, o orgulho de morar e viver numa cidade tão “ecologicamente correta”.

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Uma ótima sugestão de leitura é o trabalho de mestrado do professor Dennison de Oliveira: Curitiba e o mito da cidade-modelo, aqui ele aborda (e desconstrói), com rigor científico, o conceito de que Curitiba é uma cidade modelo.